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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Catequese do Papa Francisco sobre o Espírito Santo 08/05/2013

Brasão do Papa Francisco
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
 
O tempo Pascal que, com alegria estamos vivendo, guiado pela liturgia da Igreja, é por excelência o tempo do Espírito Santo dado “sem medida” (cf. Jo 3:34) por Jesus crucificado e ressuscitado. Este tempo de graça termina com a festa de Pentecostes, quando a Igreja revive o derramamento do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos reunidos em oração no Cenáculo.
Mas quem é o Espírito Santo? No Credo professamos com fé: “Creio no Espírito Santo, que é Senhor e nos dá a vida.” A primeira verdade a qual aderimos no Credo é que o Espírito Santo é Kyrios, Senhor. Isto significa que Ele é verdadeiramente Deus, como são o Pai e o Filho, objeto, de nossa parte, do mesmo ato de adoração e glorificação que elevamos ao Pai e ao Filho. O Espírito Santo, de fato, é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é o grande dom do Cristo ressuscitado que abre as nossas mentes e nossos corações à fé em Jesus como Filho enviado pelo Pai, que nos leva à amizade, à comunhão com Deus.
Mas eu quero focar no fato de que o Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O homem de todos os tempos e todos os lugares deseja uma vida plena e bela, justa e boa, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até sua plenitude. O homem é como um viajante que, atravessando os desertos da vida, tem sede de água viva, abundante e fresca, capaz de saciar seu profundo desejo de luz, de amor, de beleza e paz. Todos nós sentimos esse desejo! E Jesus nos dá essa água viva, o Espírito Santo que procede do Pai e que Jesus derrama em nossos corações. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, Jesus nos diz (Jo 10,10).
Jesus promete à samaritana uma “água viva”, com abundância e para sempre a todos aqueles que O reconhecem como o Filho enviado pelo Pai para nos salvar (cf. Jo 4, 5-26; 3:17). Jesus veio para nos dar esta “água viva” que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada por Deus, animada por Ele, alimentada por Ele. Quando dizemos que o cristão é um homem espiritual, queremos dizer exatamente isso: o cristão é alguém que pensa e age segundo Deus, segundo o Espírito Santo. Mas me pergunto: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos de acordo com Deus ou nos deixamos guiar por tantas outras coisas que não Deus? Cada um de nós deve responder a isto no profundo de seu coração.
Neste ponto, podemos nos perguntar: por que esta água pode saciar plenamente a nossa sede? Sabemos que a água é essencial para a vida; sem água morremos, ela sacia, lava, torna fecunda a terra. Na carta aos Romanos encontramos esta expressão: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (5:5). Água viva, o Espírito Santo, dom do Ressuscitado que habita em nós, nos purifica, nos ilumina, nos renova, nos transforma para que nos tornemos participantes da própria vida de Deus, que é Amor. Por isso, o apóstolo Paulo afirma que a vida do cristão é animada pelo Espírito e seus frutos, que são “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5:22-23). O Espírito Santo nos introduz à vida divina como “filhos no Filho Unigênito”.
Em outro trecho da carta aos Romanos, que já mencionamos outras vezes, São Paulo resume tudo nestas palavras: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. E vós… recebestes o Espírito que nos torna filhos adotivos, pelo qual clamamos: ‘Abba, Pai’!. O mesmo Espírito, em união com o nosso espírito, comprova que somos filhos de Deus e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se sofremos com Ele, para que também sejamos glorificados com Ele” (8, 14-17).
Este é o dom precioso que o Espírito Santo coloca em nossos corações: a própria vida de Deus, vida de verdadeiros filhos, uma relação de confiança, liberdade, confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um novo olhar ao outro, próximo ou distante, cada vez mais visto como irmão e irmã em Jesus, a ser respeitado e amado.
O Espírito Santo nos ensina a olhar com os olhos de Cristo, a viver a vida como Ele viveu, a entender a vida como Ele entendeu. É por isso que a água viva, que é Espírito Santo, sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar Deus como filhos e que por sua graça podemos viver como filhos de Deus, como Jesus. E nós, escutamos o Espírito Santo? O que podemos dizer em relação ao Espírito? Dizem: Deus te ama. Dizem isso a nós. Deus te ama. Nós realmente amamos Deus e os outros como Jesus?
Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, que Ele nos fale ao coração e nos diga isto: que Deus é amor, que Deus nos espera, que Deus é Pai, que nos ama como um verdadeiro Pai, nos ama verdadeiramente e isso somente o Espirito Santo nos diz ao coração. Sintamos o Espírito Santo, escutamos o Espírito Santo e vamos em frente pelo caminho do amor, da misericórdia e perdão. Obrigado.
 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Catequese do Papa Francisco- 01/05/2013

Palavras do Papa no Regina Coeli - 28/04/2013


Caros irmãos e irmãs,
Bom dia!
Hoje, 1º de maio, celebramos São José Operário e iniciamos o mês tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora. No nosso encontro de hoje, quero focar estas duas figuras importantes na vida de Jesus, da Igreja e nas nossas vidas, com duas breves reflexões: primeiro, sobre o trabalho, segundo, sobre a contemplação de Jesus.
No Evangelho de São Mateus, em um dos momentos em que Jesus retorna à sua região, a Nazaré, e fala na sinagoga, destaca-se o espanto de seus compatriotas por sua sabedoria. Eles se perguntam: “Não é este o filho do carpinteiro? “(13:55). Jesus entra em nossa história, está entre nós, nascido de Maria pelo poder de Deus, mas com a presença de São José, o pai legal, de direito, que cuida d’Ele e também lhe ensina seu trabalho. Jesus nasce e vive em uma família, na Sagrada Família, aprendendo com São José o ofício de carpinteiro, na carpintaria em Nazaré, dividindo com ele seus compromissos, esforços, satisfação e as dificuldades do dia a dia.
Isso nos lembra a dignidade e a importância do trabalho. O livro de Gênesis nos diz que Deus criou o homem e a mulher dando-lhes a missão de encher a terra e sujeitá-la, o que não significa desfrutá-la, mas cultivá-la e protegê-la, cuidar dela com o seu trabalho (cf. Gen 1:28; 2 15). O trabalho faz parte do plano de amor de Deus, somos chamados a cultivar e cuidar de todos os bens da criação, deste modo participamos da obra da criação! O trabalho é fundamental para a dignidade de uma pessoa. O trabalho, para usar uma imagem concreta, nos “unge” de dignidade, nos plenifica de dignidade, nos torna semelhantes a Deus, que trabalhou e trabalha, age sempre (cf. Jo 5:17), dá a capacidade de nos manter, manter nossa família, contribuir para o crescimento da nação. E aqui penso nas dificuldades que, em vários países, se encontra hoje o mundo do trabalho e da empresa, eu penso naqueles que, não apenas os jovens, estão desempregados, muitas vezes por uma concepção puramente econômica (mecanicista) da sociedade, que busca o lucro egoísta, fora dos parâmetros de justiça social.
Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e, aos chefes do setor público, convidá-los ao encorajamento, a fazer de tudo para dar um novo impulso ao emprego, isso significa se preocupar com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, vos exorto a não perderem a esperança; São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vocês, meninos e meninas, a vocês jovens: se esforcem em suas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros, o vosso futuro também depende de como vocês vão viver esses preciosos anos de vida. Não tenham medo do compromisso, do sacrifício e não olhem para o futuro com medo, mantenham viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.
Acrescento uma palavra sobre uma outra situação de trabalho que me incomoda: refiro-me ao que definimos como “trabalho escravo”, o trabalho que escraviza. Quantas pessoas no mundo são vítimas deste tipo de escravidão, em que é a pessoa que serve o trabalho, enquanto deve ser o trabalho a oferecer um serviço à pessoa, para que tenhamos todos dignidade. Peço aos irmãos e irmãs na fé e todos os homens e mulheres de boa vontade, uma escolha decisiva contra o tráfico de pessoas, contexto no qual se constitui o “trabalho escravo”.
Faço referência agora ao segundo pensamento: no silêncio das ações cotidianas, São José, juntamente com Maria, tem um centro comum de atenção: Jesus. Eles acompanham e protegem, com empenho e carinho, o crescimento do Filho de Deus feito homem por nós, refletindo sobre tudo o que acontecia. Nos Evangelhos, Lucas enfatiza duas vezes a atitude de Maria, que também é a de São José, “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (2,19.51). Para ouvir o Senhor, devemos aprender a contemplá-Lo, perceber sua presença constante em nossas vidas; precisamos parar para dialogar com Ele, dar-lhe espaço na oração. Cada um de nós, vocês meninas, meninos e, jovens, em grande número reunidos aqui nesta manhã, deve se perguntar: qual o espaço dou ao Senhor? Eu paro para falar com Ele? Desde que éramos crianças, nossos pais nos acostumaram a começar e terminar o dia com uma oração, para nos ensinar a perceber que a amizade e o amor de Deus nos acompanhavam. Vamos nos lembrar mais do Senhor em nosso dia!
E neste mês de maio, eu gostaria de lembrar a importância e a beleza da oração do Santo Terço. Recitando a Ave Maria, somos levados a contemplar os mistérios de Jesus, refletir sobre os principais momentos de Sua vida, para que, como foi com Maria e São José, Ele seja o centro dos nossos pensamentos, da nossa atenção e de nossas ações. Seria bom que, especialmente neste mês de maio, rezássemos juntos, em família, com os amigos, na paróquia, o Santo Terço ou alguma oração a Jesus e à Virgem Maria! A oração feita em comunidade é um momento precioso para tornar ainda mais forte a vida familiar, a amizade! Aprendamos a rezar mais em família e como família!
Queridos irmãos e irmãs, rogamos a São José e à Virgem Maria que nos ensinem a sermos fiéis a nossas tarefas diárias, a viver nossa fé nas ações do dia a dia e dar mais espaço ao Senhor em nossas vidas, a parar para contemplar Seu rosto.
Obrigado.
 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Catequese do Papa Bento XVI- 24/04/2013

Catequese com Papa Francisco - 24/04/2013

 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No Credo nós professamos que Jesus “de novo virá na glória para julgar os vivos e os mortos”. A história humana começou com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus e se conclui com o juízo final de Cristo. Muitas vezes nos esquecemos destes dois pólos da história, e sobretudo a fé no retorno de Cristo e no juízo final às vezes não é assim tão clara e forte no coração dos cristãos. Jesus, durante a vida pública, concentrou-se sempre na realidade da sua última vinda. Hoje gostaria de refletir sobre três textos evangélicos que nos ajudam a entrar neste mistério: aquele das dez virgens, aquele dos talentos e aquele sobre o juízo final. Todos os três fazem parte do discurso de Jesus sobre os fins dos tempos, no Evangelho de São Mateus.
Antes de tudo, recordamos que, com a Ascensão, o Filho de Deus levou para junto do Pai a nossa humanidade por Ele assumida e quer atrair todos a si, chamar todo mundo a ser acolhido entre os braços abertos de Deus, a fim de que, ao final da história, toda a realidade seja entregue ao Pai. Há , porém, este “tempo imediato” entre a primeira vinda de Cristo e a última, que é propriamente o tempo que estamos vivendo. Neste contexto do “tempo imediato” coloca-se a parábola das dez virgens (cfr Mt 25,1-13). Trata-se das dez moças que esperavam a chegada do Esposo, mas estes demoram e elas adormecem. Ao anúncio repentino de que o Esposo está chegando, todas se preparam para acolhê-lo, mas enquanto cinco dessas, prudentes, levaram o óleo para alimentar as próprias lâmpadas, as outras, tolas, permanecem com as luzes apagadas porque não o têm; e enquanto o procuram chega o Esposo e as virgens tolas encontram fechada a porta que introduz à festa de casamento. Batem insistentemente, mas agora é tarde demais, o Esposo responde: não vos conheço. O Esposo é o Senhor, e o tempo de espera pela sua chegada é o tempo que Ele nos dá, a todos nós, com misericórdia e paciência, antes de sua vinda final; é um tempo de vigilância; tempo no qual devemos ter acesas as lâmpadas da fé, da esperança e da caridade, no qual ter aberto o coração ao bem, à beleza e à verdade; tempo de viver segundo Deus, porque não conhecemos nem o dia, nem a hora do retorno de Cristo. Aquilo que nos foi pedido é para estarmos preparados para o encontro – preparados para um encontro, para um belo encontro, o encontro com Jesus – , que significa saber ver os sinais da sua presença, ter viva a nossa fé, com a oração, com os Sacramentos, ser vigilantes para não adormecermos, para não nos esquecermos de Deus. A vida de cristãos adormecidos é uma vida triste, não é uma vida feliz. O cristão deve ser feliz, a alegria de Jesus. Não nos adormeçamos!
A segunda parábola, aquela dos talentos, faz-nos refletir sobre a relação entre como usamos os dons recebidos de Deus e o seu retorno, no qual nos perguntará como os utilizamos (cfr Mt 25,14-30). Conhecemos bem a parábola: antes da partida, o patrão dá a cada servo alguns talentos, a fim de que sejam utilizados bem durante a sua ausência. Ao primeiro doa cinco, ao segundo dois e ao terceiro um. No primeiro dia de ausência, os dois primeiros servos multiplicam os seus talentos – estes são moedas antigas – , enquanto o terceiro prefere enterrar o próprio e conservá-lo intacto para o patrão. Com o seu retorno, o patrão julga os seus operários: elogia os dois primeiros, enquanto o terceiro é lançado às trevas exteriores, porque escondeu por medo o talento, fechando-se em si mesmo. Um cristão que se fecha em si mesmo, que esconde tudo aquilo que o Senhor lhe deu é um cristão … não é cristão! É um cristão que não agradece a Deus por tudo aquilo que lhe deu! Isto nos faz dizer que a espera pelo retorno do Senhor é o tempo de ação – nós estamos no tempo de ação – , o tempo no qual colher os frutos dos dons de Deus não para nós mesmos, mas para Ele, para a Igreja, para os outros, o tempo no qual procurar sempre fazer crescer o bem no mundo. E em particular neste tempo de crises, hoje, é importante não se fechar em si mesmo, enterrando o próprio talento, as próprias riquezas espirituais, intelectuais, materiais, tudo aquilo que o Senhor nos deu, mas abrir-se, ser solidários, ser atentos ao outro. Na Praça, vi que há muitos jovens: é verdade isto? Há muitos jovens? Onde estão? A vocês, que estão no início do caminho da vida, pergunto: já pensaram nos talentos que Deus deu a vocês? Já pensaram em como podem colocá-los a serviços dos outros? Não enterrem os talentos! Apostem em grandes ideais, aqueles ideais que alargam o coração, aqueles ideais de serviço que tornam fecundos os vossos talentos. A vida não é dada para que a conservemos para nós mesmos, mas nos é dada para que a doemos. Queridos jovens, tenham uma grande alma! Não tenham medo de sonhar com coisas grandes!
Enfim, uma parábola sobre o trecho do juízo final, no qual vem descrita a segunda vinda do Senhor, quando Ele julgará todos os seres humanos, vivos e mortos (cfr Mt 25,31-46). A imagem utilizada pelo evangelista é aquela do pastor que separa as ovelhas dos cabritos. À direita estão colocados aqueles que agiram segundo a vontade de Deus, socorrendo o próximo que tem fome, sede, o estrangeiro, nu, doente, encarcerado – disse “estrangeiro”: penso que tantos estrangeiros que estão aqui na diocese de Roma: o que fazemos por eles? – enquanto para a esquerda vão aqueles que não socorreram o próximo. Isto nos diz que nós seremos julgados por Deus sobre a caridade, sobre como o temos amado nos nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e necessitados. Certo, devemos sempre ter bem presente que nós somos justificados, somos salvos pela graça, por um ato de amor gratuito de Deus que sempre nos precede; sozinhos não podemos fazer nada. A fé é, antes de tudo, um dom que nós recebemos. Mas para dar frutos, a graça de Deus pede sempre a nossa abertura a Ele, a nossa resposta livre e concreta. Cristo vem trazer-nos a misericórdia de Deus que salva. A nós é pedido para nos confiarmos a Ele, para corresponder ao dom do seu amor com uma vida boa, feita de ações animadas pela fé e pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, olhar para o juízo final não nos cause medo; impulsione-nos para viver melhor o presente. Deus nos oferece com misericórdia e paciência este tempo a fim de que aprendamos a cada dia a reconhecê-Lo nos pobres e nos pequenos, a fim de que nos comprometamos com o bem e sejamos vigilantes na oração e no amor. O Senhor, ao término da nossa existência e da história, possa reconhecer-nos como servos bons e fiéis. Obrigado.
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Catequese do Papa Francisco- 03/04/2013

 
 Papa Francisco realiza sua primeira Catequese com os fiéis
 


Catequese do Papa Francisco - 03/04/2013
Catequese
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 3 de abril de 2013
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia,
Hoje retomamos as Catequeses do Ano da Fé. No Credo repetimos esta expressão: “Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras”. É propriamente o evento que estamos celebrando: a Ressurreição de Jesus, centro da mensagem cristã, ecoando desde o início e transmitido porque se estende até nós. São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: “A vós…transmiti, antes de tudo, aquilo que também eu recebi; isso é, que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras e que apareceu a Cefas e aos Doze” (1 Cor 15, 3-5). Esta breve confissão de fé anuncia propriamente o Mistério Pascal, com as primeiras aparições do Ressuscitado a Pedro e aos Doze: a Morte e a Ressurreição de Jesus são propriamente o coração da nossa esperança. Sem esta fé na morte e na ressurreição de Jesus a nossa esperança será frágil, mas não haverá esperança nenhuma, e propriamente a morte e a ressurreição de Jesus são o coração da nossa esperança. O Apóstolo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé e vós estais ainda em vossos pecados” (v. 17). Infelizmente, sempre se procurou obscurecer a fé na Ressurreição de Jesus, e também entre os próprios crentes se insinuaram dúvidas. Um pouco daquela fé “água de rosas”, como dizemos nós; não é a fé forte. E isto por superficialidade, às vezes por indiferença, ocupados por mil coisas que são consideradas mais importantes que a fé, ou por uma visão somente horizontal da vida. Mas é propriamente a Ressurreição que nos abre à esperança maior, porque abre a nossa vida e a vida do mundo ao futuro eterno de Deus, à felicidade plena, à certeza de que o mal, o pecado, a morte podem ser vencidos. E isto leva a viver com mais confiança as realidades cotidianas, enfrentá-las com coragem e com compromisso. A Ressurreição de Cristo ilumina com uma luz nova estas realidades cotidianas. A Ressurreição de Cristo é a nossa força!
Mas como nos foi transmitida a verdade de fé da Ressurreição de Cristo? Há dois tipos de testemunho no Novo Testamento: alguns são na forma de profissão de fé, isso é, de fórmulas sintéticas que indicam o centro da fé; outras, porém, são em forma de relatos do acontecimento da Ressurreição e de fatos ligados a ela. A primeira: a forma da profissão de fé, por exemplo, é aquela que escutamos há pouco, ou aquela da Carta aos Romanos na qual São Paulo escreve: “Se com a tua boca proclamarás: ‘Jesus é o Senhor!’, e com o teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (10, 9). Desde os primeiros passos da Igreja está bem clara e firme a fé no Mistério de Morte e Ressurreição de Jesus. Hoje, porém, gostaria de concentrar-me sobre a segunda, sobre o testemunho na forma de relatos, que encontramos nos Evangelhos. Antes de tudo, notamos que as primeiras testemunhas deste acontecimento foram as mulheres. Ao amanhecer, essas vão ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus, e encontram o primeiro sinal: o túmulo vazio (cfr Mc 16,1). Segue depois o encontro com um Mensageiro de Deus que anuncia: Jesus de Nazaré, o Crucificado, não está aqui, ressuscitou (cfr vv. 5-6). As mulheres são movidas por amor e estão prontas para aceitar este anúncio com fé: acreditam, e imediatamente o transmitem, não o guardam para si mesmas, transmitem-no. A alegria de saber que Jesus está vivo, a esperança que enche o coração, não se pode conter. Isto também deve ser feito na nossa vida. Sintamos a alegria de ser cristãos! Nós cremos em um Ressuscitado que venceu o mal e a morte! Tenhamos a coragem de “sair” para levar esta alegria e esta luz a todos os lugares da nossa vida! A Ressurreição de Cristo é a nossa maior certeza; é o tesouro mais precioso! Como não compartilhar com os outros este tesouro, esta certeza? Não é somente para nós, é para transmiti-la, para doá-la aos outros, compartilhá-la com os outros. É propriamente o nosso testemunho.
Um outro elemento. Nas profissões de fé do Novo Testamento, como testemunhas da Ressurreição são recordados somente homens, os Apóstolos, mas não as mulheres. Isto porque, segundo a Lei judaica daquele tempo, as mulheres e as crianças não podiam dar testemunho confiável, credível. Nos Evangelhos, em vez disso, as mulheres têm um papel primário, fundamental. Aqui podemos colher um elemento a favor da historicidade da Ressurreição: se fosse um fato inventado, no contexto daquele tempo não estaria ligado ao testemunho das mulheres. Os evangelistas, em vez disso, narram simplesmente isso que aconteceu: são as mulheres as primeiras testemunhas. Isto mostra que Deus não escolhe segundo os critérios humanos: as primeiras testemunhas do nascimento de Jesus são os pastores, gente simples e humilde; as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. E isto é belo. E isto é um pouco a missão das mulheres: das mamães, das mulheres! Dar testemunho aos filhos, aos sobrinhos, que Jesus está vivo, está vivo, ressuscitou. Mães e mulheres, sigam adiante com este testemunho! Para Deus conta o coração, o quanto estamos abertos a Ele, se somos como as crianças que confiam. Mas isto nos faz refletir também sobre como as mulheres, na Igreja e no caminho de fé, tiveram e têm também hoje um papel particular no abrir as portas ao Senhor, no segui-Lo e no comunicar a sua Face, porque o olhar de fé tem sempre necessidade do olhar simples e profundo do amor. Os apóstolos e os discípulos encontraram dificuldades para acreditar. As mulheres não. Pedro corre ao sepulcro, mas para diante do túmulo vazio; Tomé precisa tocar com as suas mãos as feridas do corpo de Jesus. Também no nosso caminho de fé é importante saber e sentir que Deus nos ama, não ter medo de amá-Lo: a fé se professa com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor.
Depois das aparições às mulheres, seguem outras: Jesus torna-se presente de modo novo: é o Crucificado, mas o seu corpo é glorioso; não tornou à vida terrena, mas sim em uma nova condição. No início não O reconhecem, e somente através de suas palavras e os seus gestos os olhos se abrem: o encontro com o Ressuscitado transforma, dá uma nova força à fé, um fundamento inabalável. Também para nós há tantos sinais no qual o Ressuscitado se faz reconhecer: a Sagrada Escritura, a Eucaristia, os outros Sacramentos, a caridade, aqueles gestos de amor que trazem um raio do Ressuscitado. Deixemo-nos iluminar pela Ressurreição de Cristo, deixemo-nos transformar pela sua força, para que também através de nós no mundo os sinais de morte deixem o lugar aos sinais de vida. Vi que há tantos jovens na praça. Aqui estão eles! A vocês digo: levem adiante esta certeza: o Senhor está vivo e caminha ao nosso lado na vida. Essa é a missão de vocês! Levem adiante esta esperança. Estejam ancorados nesta esperança: esta âncora que está no céu; segurem forte a corda, estejam ancorados e levem adiante a esperança. Vocês, testemunhas de Jesus, levem adiante o testemunho de que Jesus está vivo e isto nos dará esperança, dará esperança a este mundo um pouco envelhecido pelas guerras, pelo mal, pelo pecado. Avante, jovens!

segunda-feira, 25 de março de 2013

Semana Santa





 
A Semana santa também chamada de semana maior é o grande retiro espiritual dos cristãos católicos, que nos convida ao recolhimento, interiorização e reflexão sobre o grande mistério de um Deus que se entrega na cruz para salvar a toda a humanidade, uma entrega que culmina com a sua ressurreição- a Páscoa dos cristãos.
 
A semana santa inicia-se no Domingo de ramos e se estende até o Domingo da Páscoa. É a semana mais importante do ano litúrgico, quando se celebram de modo especial os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Como surgiu a Semana Santa

O costume de celebrar a semana que antecede a Festa da Páscoa vem deste os primeiros séculos. Inicialmente as celebrações aconteciam somente na sexta-feira e no sábado. No século IV, essa semana chamava-se Hebdomada paschalis( semana pascal) e no século V passou a chamar Semana Autentica, em Roma. No oriente chamava-se Semana Maior. Durante este mesmo período começou a ser chamada de Semana Santa.
Inicialmente nesta semana as celebrações se reduziam á sexta-feira e ao sábado. Depois foi incluido também a quarta-feira , para lembrar o dia em que os judeus decidiram prender Jesus. Pelo ano 247 já se celebrava durante toda a semana, depois pelas igrejas européias . A partir do século IX e que essas celebrações chegaram a Roma.
 
 
 

 Domingo de Ramos- A Semana Santa começa no Domingo de Ramos, porque celebra a entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumentinho – o símbolo da humildade – e aclamado pelo povo simples, que O aplaudia como “Aquele que vem em nome do Senhor”.O sentido da Procissão de Ramos é mostrar essa peregrinação sobre a terra que cada cristão realiza a caminho da vida eterna com Deus. Ela nos recorda que somos apenas peregrinos neste mundo tão passageiro, tão transitório, que se gasta tão rapidamente. Mostra-nos que a nossa pátria não é neste mundo, mas na eternidade, que aqui nós vivemos apenas em um rápido exílio em demanda pela casa do Pai.O Domingo de Ramos nos ensina que seguir o Cristo é renunciar a nós mesmos, morrer na terra como o grão de trigo para poder dar fruto, enfrentar os dissabores e ofensas por causa do Evangelho do Senhor. Estar disposto a carregar a cruz com aquele que a levou até o Calvário sem abandoná-la. Estar disposta a defender o Cristo e a Igreja com novo ardor, e com novo ânimo renovado.
 
 
Quarta-feira santa- A Quarta-feira Santa é marcada pelo encontro de Maria com Seu Filho Jesus Cristo. Em várias cidades do Brasil, principalmente no interior, é realizada a Procissão do Encontro para lembrar este momento. Carregando a Sua cruz, depois de ter sido flagelado e condenado à morte, Jesus começa a Via-Sacra e encontra-se com Nossa Senhora.

Tríduo pascal- Na liturgia romana o Tríduo Pascal é ponto culminante: "não se trata de um tríduo preparatório para a festa da Páscoa, mas são três dias de Cristo crucificado, morto e ressuscitado. Tem início na celebração da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, na missa vespertina, terminando com o domingo de Páscoa". São dias dedicados a celebrações e orações especiais.
 
Quinta-feira santa- Ceia do Senhor e lava-pés
 A liturgia da Quinta-feira Santa nos fala do amor, com a cerimônia do Lava-pés, a proclamação do novo mandamento, a instituição do sacerdócio ministerial e a instituição da Eucaristia, em que Jesus se faz nosso alimento, dando-nos seu corpo e sangue. É a manifestação profunda do seu amor por nós, amor que foi até onde podia ir: "Como Ele amasse os seus amou-os até o fim".Nesta noite é celebrada a Instituição da Eucaristia e do sacerdócio. A Igreja reveste-se de branco, lembrando-se o esplendor da glória de Deus. Acontece também a cerimônia do lava-pés. Após a missa realiza-se a vigília eucarística.
 
Sexta-feira santa
 
 Único dia durante o ano em que não se celebra missa, apenas distribui-se a comunhão. Nesta celebração somos convidados a compreender e a viver mais profundamente o mistério da cruz: o sofrimento e a morte assumidos por Cristo foram em vista da nossa salvação. A Paixão segundo o Evangelho de João apresenta a cruz como glorificação de Jesus, ela é sinal de salvação e de vitória (cf. Jo 3, 14). A Cruz é símbolo de Cristo e da vida nova que ele nos oferece, por isso, ao reverenciarmos a cruz nós estamos adorando o próprio Redentor. A Oração Universal rezada nesta celebração nos faz lembrar que Cristo veio para que todos, sem distinção, tivessem vida em abundância. Neste dia também costuma-se realizar a procissão do senhor morto. É um dia muito especial de jejum, abstinência de carne, penitência, oração e profundo silêncio.

 
 
Sábado de Aleluia- Vigilia Pascal
 
 

 
Na noite, em que Jesus Cristo passou da morte à vida, a Igreja convida os seus filhos a reunirem-se em vigília e oração. Na verdade, a Vigília pascal foi sempre considerada a mãe de todas a vigílias e o coração do Ano litúrgico. No texto do Precónio pascal, chamado o hino “Exsultet” e que se canta nesta celebração, diz-se que esta noite é «bendita», porque é a «única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro! Esta é a noite, da qual está escrito: a noite brilha como o dia e a escuridão é clara como a luz». Por isso, desde o início a Igreja celebrou a Páscoa anual, solenidade das solenidades, com um vigília noturna.A celebração da Vigília pascal articula-se em quatro partes: 1) a liturgia da luz ou “lucernário”; 2) a liturgia da Palavra; 3) a liturgia baptismal; 4) a liturgia eucarística.A Vigília Pascal nos liga e nos introduz na celebração do Domingo da ressurreição e nos move para a festa dos cinqüenta dias de festa: “Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e Nele exultemos” (Sl 118). Mas a missa da Vigília é a verdadeira missa da Domingo de Páscoa. As outras missas durante o domingo são prolongamento da Vigília e mantém o clima pascal festivo.
 
Domingo de Páscoa
 
É o aniversário do triunfo de Cristo. É a feliz conclusão do drama da Paixão e a alegria imensa depois da dor. E uma dor e alegria que se fundem pois se referem na história ao acontecimento mais importante da humanidade: a redenção e libertação do pecado da humanidade pelo Filho de Deus.      São Paulo nos diz : "Aquele que ressuscitou Jesus Cristo devolverá a vida a nossos corpos mortais".
A mensagem redentora da Páscoa não é outra coisa que a purificação total do homem, a libertação de seus egoísmos, de sua sensualidade, de seus complexos, purificação que, ainda que implique em uma fase de limpeza e saneamento interior, contudo se realiza de maneira positiva com dons de plenitude, com a iluminação do Espírito, a vitalização do ser por uma vida nova, que transborda alegria e paz - soma de todos os bens messiânicos-, em uma palavra, a presença do Senhor ressuscitado. São Paulo o expressou com incontida emoção neste texto: " Se ressuscitastes com Cristo, então vos manifestareis gloriosos com Ele".
 
 
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Catequese de Bento XVI: A revelação da face de Deus 16/01/2013

Boletim da Santa Sé
(Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)




 
Queridos irmãos e irmãs,

O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a divina Revelação Dei Verbum, afirma que a íntima verdade de toda a revelação de Deus brilha para nós “em Cristo, que é também o mediador e a plenitude de toda a Revelação” (n. 2). O Antigo Testamento nos narra como Deus, depois da criação, apesar do pecado original, apesar da arrogância do homem de querer colocar-se no lugar do seu criador, oferece novamente a possibilidade da sua amizade, sobretudo através da aliança com Abraão e o caminho de um pequeno povo, aquele de Israel, que Ele escolhe não com critérios de poder terreno, mas simplesmente por amor. É uma escolha que permanece um mistério e revela o estilo de Deus que chama alguns não para excluir outros, mas para que faça uma ponte que conduza a Ele: eleição é sempre eleição para o outro. Na história do povo de Israel podemos refazer os passos de um longo caminho no qual Deus se faz conhecer, se revela, entra na história com palavras e com ações. Para este trabalho, Ele usa mediadores, como Moisés, os Profetas, os Juízes, que comunicam ao povo a sua vontade, recordam a exigência de fidelidade à aliança e mantêm viva a realização plena e definitiva das promessas divinas.
E é propriamente a realização destas promessas que contemplamos no Santo Natal: a Revelação de Deus alcança o seu ápice, a sua plenitude. Em Jesus de Nazaré, Deus visita realmente o seu povo, visita a humanidade de um modo que vai além de todas as expectativas: manda o seu Filho Unigênito; faz-se homem o próprio Deus. Jesus não nos diz qualquer coisa sobre Deus, não fala simplesmente do Pai, mas é a revelação de Deus, porque é Deus, e nos revela assim a face de Deus. No Prólogo de seu Evangelho, São João escreve: “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai foi quem o revelou” (Jo 1, 18).
Gostaria de concentrar-me sobre este “revelar a face de Deus”. A este respeito, São João, no seu Evangelho, relata-nos um fato significativo que ouvimos então. Aproximando-se a Paixão, Jesus tranquiliza os seus discípulos convidando-os a não terem medo e a ter fé; depois começa um diálogo com eles no qual fala de Deus Pai (cfr Jo 14, 2-9). Em um certo ponto, o apóstolo Filipe pede a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai e nos basta” (Jo 14, 8). Filipe é muito prático e concreto, diz também o que nós queremos dizer: “queremos ver, mostra-nos o Pai”, pede para “ver” o Pai, para ver a sua face. A resposta de Jesus é respondida não somente a Filipe, mas também a nós e nos introduz no coração da fé cristológica; o Senhor afirma: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). Nesta expressão está contida sinteticamente a novidade do Novo Testamento, aquela novidade que apareceu na gruta de Belém: Deus pode ser visto, Deus manifestou a sua face, é visível em Jesus Cristo.
Em todo o Antigo Testamento está presente o tema da “busca da face de Deus”, o desejo de conhecer esta face, o desejo de ver como Deus é, tanto que o termo hebraico pānîm, que significa “face”, aparece nada menos que 400 vezes, e 100 delas são referentes a Deus: 100 vezes refere-se a Deus, deseja-se ver a face de Deus. No entanto, a religião judaica proíbe todas as imagens, porque Deus não pode ser representado, como em vez disso faziam os povos vizinhos com a adoração de ídolos; então, com esta proibição de imagens, o Antigo Testamento parece excluir totalmente o “ver” do culto e da devoção. O que significa, então, para o israelita piedoso, todavia buscar a face de Deus, na consciência de que não pode existir imagem alguma? A pergunta é importante: por um lado se quer dizer que Deus não pode ser reduzido a um objeto, como uma imagem que se toma em mãos, nem sequer se pode colocar algo no lugar de Deus; por outro lado, porém, afirma-se que Deus tem uma face, isso é, um “Tu” que pode entrar em relacionamento, que não está fechado no seu Céu a olhar do alto para a humanidade. Deus está certamente acima de todas as coisas, mas se dirige a nós, escuta-nos, vê-nos, fala, estabelece aliança, é capaz de amar. A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a história deste relacionamento de Deus que se revela progressivamente ao homem, que faz conhecer a si próprio, a sua face.
Propriamente no início do ano, em 1º de janeiro, ouvimos, na liturgia, a belíssima oração de benção sobre o povo: “O Senhor te abençõe e te guarde. O Senhor te mostre a sua face e conceda-te a sua graça. O Senhor volva o seu rosto para ti e te dê a paz” (Nm 6,24-26). O esplendor da face divina é a fonte de vida, é isso que permite ver a realidade; a luz da sua face é o guia da vida. No Antigo Testamento tem uma figura à qual está conectado de uma forma muito especial o tema da "face de Deus"; trata-se de Moisés, aquele que Deus escolhe para libertar o povo da escravidão do Egito, doa-lhe a Lei da aliança e o conduz à Terra prometida. Bem, no capítulo 33 do Livro do Êxodo, diz-se que Moisés tinha um relacionamento fechado e confidencial com Deus: “o Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo” (v. 11). Em virtude dessa confiança, Moisés pede a Deus: “Mostra-me a tua glória!”, e a resposta de Deus é clara: “Farei passar diante de ti todo o meu esplendor e proclamarei o meu nome... Mas tu não poderás ver a minha face, porque nenhum homem pode me ver e permanecer vivo...Eis um lugar perto de mim...Tu me verás por detrás, mas a minha face não pode ser vista” (vv. 18-23). De um lado, então, tem o diálogo face a face como entre amigos, mas do outro tem a impossibilidade, nesta vida, de ver a face de Deus, que permanece escondida; a visão é limitada. Os Padres dizem que estas palavras, “tu me verás por detrás”, querem dizer: tu podes somente seguir Cristo e seguindo vês por trás o mistério de Deus; Deus pode ser seguido vendo as suas costas.
Algo de completamente novo acontece, porém, com a Encarnação. A busca da face de Deus recebe uma mudança incrível, porque agora esta face pode ser vista: é aquela de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra cumprimento o caminho da revelação de Deus iniciado com o chamado a Abraão, Ele é a plenitude desta revelação porque é o Filho de Deus, é ao mesmo tempo “mediador e plenitude de toda a Revelação” (Const. Dog. Dei Verbum, 2), Nele o conteúdo da Revelação e o Revelador coincidem. Jesus nos mostra a face de Deus e nos faz conhecer o nome de Deus. Na oração sacerdotal, na Última Ceia, Ele diz ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens...Fiz conhecerem eles o teu nome” (cfr Jo 17, 6. 26). A expressão “nome de Deus” significa Deus como Aquele que está presente entre os homens. A Moisés, na sarça ardente, Deus havia revelado o seu nome, isso é, tinha se tornado exigível, tinha dado um sinal concreto do ser “existir” entre os homens. Tudo isso em Jesus encontra cumprimento e plenitude: Ele inaugura de um modo novo a presença de Deus na história, para que quem o vê, veja o Pai, como diz a Filipe (cfr Jo 14, 9). O Cristianismo – afirma São Bernardo – é a “religião da Palavra de Deus”; não, porém, de “uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo” (Hom. Super missus est, IV, 11: PL 183, 86B). Na tradição patrística e medieval, usa-se uma fórmula particular para exprimir esta realidade: diz-se que Jesus é o Verbum abbreviatum (cfr Rm 9,28, relatado em Is 10,23), o Verbo abreviado, a Palavra breve, abreviada e substancial do Pai, que nos disse tudo Dele.
Em Jesus toda a Palavra está presente.
Em Jesus também a mediação entre Deus e o homem encontra a sua plenitude. No Antigo Testamento há uma série de figuras que desempenharam esta função, em particular Moisés, o libertador, o guia, o “mediador” da aliança, como o define também o Novo Testamento (cfr Gal 3, 19; At 7, 35; Jo 1, 17). Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não é simplesmente um dos mediadores entre Deus e o homem, mas é “o mediador” da nova e eterna aliança (cfr Eb 8,6; 9,15; 12,24); “um só, de fato, é Deus – diz Paulo – e um só o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Tm 2,5; cfr Gal 3,19-20). Nele nós vemos e encontramos o Pai; Nele podemos invocar Deus com o nome de “Abbá Pai”; nele nos é doada a salvação.
O desejo de conhecer Deus realmente, isso é, de ver a face de Deus é inerente a todos os homens, também nos ateus. E nós temos talvez inconscientemente este desejo de ver simplesmente quem é Ele, o que é, quem é para nós. Mas este desejo se realiza seguindo Cristo, assim vemos as costas e vemos enfim também Deus como amigo, a sua face na face de Cristo. O importante é que sigamos Cristo não somente no momento no qual temos necessidade e quando encontramos um espaço nas nossas ocupações cotidianas, mas com a nossa vida enquanto tal. Toda a nossa existência deve ser orientada ao encontro com Jesus Cristo, ao amor por Ele; e, nisso, um lugar central deve ter o amor pelo próximo, aquele amor que, à luz do Crucifixo, nos faz reconhecer a face de Jesus no pobre, no fraco, naquele que sofre. Isso é possível somente se a verdadeira face de Jesus tornou-se familiar para nós na escuta da sua Palavra, no falar interiormente, no entrar nesta Palavra de forma que realmente O encontremos, e naturalmente no Mistério da Eucaristia. No Evangelho de São Lucas, é significativa a parte dos dois discípulos de Emaús, que reconhecem Jesus ao partir o pão, mas preparados pelo caminho com Ele, preparados pelo convite que fizeram a Ele de permanecer com eles, preparados pelo diálogo que fez arder os seus corações; assim, ao fim, veem Jesus. Também para nós a Eucaristia é a grande escola na qual aprendemos a ver a face de Deus, entramos em relacionamento íntimo com Ele; e aprendemos, ao mesmo tempo a dirigir o olhar para o momento final da história, quando Ele irá nos satisfazer com a luz da sua face. Sobre a terra nós caminhamos para esta plenitude, na expectativa alegre que se realiza realmente no Reino de Deus. Obrigado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Catequese de Bento XVI: a origem de Jesus 02/01/2013

Boletim da Santa Sé
(Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)





Queridos irmãos e irmãs,

O Natal do Senhor ilumina mais uma vez com a sua luz as trevas que muitas vezes cercam o nosso mundo e o nosso coração e traz esperança e alegria. De onde vem esta luz? Da gruta de Belém, onde os pastores encontraram “Maria e José e o menino, deitado na manjedoura” (Lc 2,16). Diante desta Sagrada Família surge uma outra e mais profunda pergunta: como pode aquele pequeno e indefeso Menino ter levado uma novidade tão radical no mundo a ponto de mudar o curso da história? Não tem talvez algo de misterioso na sua origem vai além daquela gruta?
Sempre de novo emerge assim a pergunta sobre a origem de Jesus, a mesma que coloca o Procurador Pôncio Pilatos durante o processo: “De onde és tu?” (Gv 19,29). No entanto, trata-se de uma origem bem clara. No Evangelho de João, quando o Senhor afirma: “Eu sou o pão descido do céu”, os judeus reagem murmurando: “Não é este Jesus, o filho de José? Dele não conhecemos o pai e a mãe? Como então pode dizer: “Sou descido do céu? (Jo 6,42). E, um pouco mais tarde, os cidadãos de Jerusalém se opõem com força diante da messianidade de Jesus, afirmando que se sabe bem “de onde é; o Cristo, em vez disso, quando vier, ninguém saberá de onde é” (Jo 7,27). O próprio Jesus faz notar quanto seja inadequado a pretensão deles de conhecer a sua origem, e com isso oferece já uma orientação para saber de onde vem: “Não sou vindo de mim mesmo, mas quem me mandou é verdadeiro, e vós não o conheceis” (Jo 7, 28). Certamente, Jesus é originário de Nazaré, é nascido em Belém, mas o que se sabe da sua verdadeira origem?
Nos quatro Evangelhos emerge com clareza a resposta à pergunta “de onde” vem Jesus: a sua verdadeira origem é o Pai; Ele vem totalmente Dele, mas de modo diferente de qualquer profeta enviado por Deus que o precederam. Esta origem do mistério de Deus, “que ninguém conhece”, está contida já nas histórias sobre a infância dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, que estamos lendo neste tempo natalício. O anjo Gabriel anuncia: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso aquele que nascerá será santo e chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Repetimos estas palavras cada vez que recitamos o Credo, a Profissão de fé: “et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine”, “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”. Nesta frase ajoelhamos porque o véu que escondia Deus, vem, por assim dizer, aberto e o seu mistério insondável e inacessível nos toca: Deus se torna o Emanuel, “Deus conosco”. Quando escutamos as missas compostas por grandes mestres da música sacra, penso no exemplo da Missa de Coroação de Mozart, notamos imediatamente como se afirmam, se baseiam especialmente sobre esta frase, como para tentar expressar com a linguagem universal da música isso que as palavras não podem manifestar: o grande mistério de Deus que se encarna, se fez homem.
Se considerarmos atentamente a expressão “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”, encontramos que essa inclui quatro sujeitos que atuam. De modo explícito são mencionados o Espírito Santo e Maria, mas é subentendido “Ele”, isso é o Filho, que se fez carne no seio da Virgem. Na Profissão de fé, o Credo, Jesus aparece definido com nomes diversos: “Senhor, ... Cristo, Filho unigênito de Deus ...Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro...consubstancial ao Pai” (Credo niceno-constantinopolitano). Vemos então que “Ele” refere-se a uma outra pessoa, aquela do Pai. O primeiro sujeito desta frase é então o Pai, que, com o Filho e o Espírito Santo, é o único Deus.
Esta afirmação do Credo não é sobre o ser eterno de Deus, mas nos fala de uma ação à qual tomam parte as três Pessoas divinas e que se realiza “ex Maria Virgem”. Sem ela a entrada de Deus na história da humanidade não chegaria ao seu fim e não teria tido lugar aquilo que é central na nossa Profissão de fé: Deus é um Deus conosco. Assim Maria pertence de modo irrenunciável à nossa fé no Deus que age, que entra na história. Ela coloca à disposição toda a sua pessoa, “aceita” transformar-se lugar da morada de Deus.
Às vezes, também no caminho e na vida de fé podemos sentir a nossa pobreza, a nossa insuficiência frente ao testemunho para oferecer ao mundo. Mas Deus escolheu justamente uma mulher humilde, em uma vila desconhecida, em uma das províncias mais distantes do império romano.
Sempre, também em meio às dificuldades mais difíceis de enfrentar, devemos ter confiança em Deus, renovando a fé na sua presença e ação na nossa história, como naquela de Maria. Nada é impossível para Deus! Com Ele a nossa existência caminha sempre em terras seguras e está aberta a um futuro de firme esperança. Professando no Credo: “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”, afirmamos que o Espírito Santo, como força de Deus Altíssimo, operou de modo misterioso na Virgem Maria a concepção do Filho de Deus. O Evangelista Lucas reporta as palavras do arcanjo Gabriel: “O Espírito descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (1, 35). Duas referências são evidentes: a primeira é no momento da criação. No início do livro do Gênesis lemos que “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (1, 2); é o Espírito criador que deu vida a todas as coisas e ao ser humano. Isso que acontece em Maria, através da ação do mesmo Espírito divino, é uma nova criação: Deus, que chamou o ser do nada, com a Encarnação dá vida a um novo início da humanidade. Os Padres da Igreja muitas vezes falam de Cristo como do novo Adão, para marcar o início da nova criação do nascimento do Filho de Deus no seio da Virgem Maria. Isto nos faz refletir sobre como a fé traz também em nós uma novidade tão forte a ponto de produzir um segundo nascimento. De fato, no início do ser cristão tem o Batismo que nos faz renascer como filhos de Deus, nos faz participar da relação filial que Jesus tem com o Pai. E gostaria de salientar que como o Batismo se recebe, nós “somos batizados” – é um passivo – porque ninguém é capaz de tornar-se filho de Deus por si mesmo: é um dom que é conferido gratuitamente. São Paulo refere-se a esta filiação adotiva dos cristãos em uma passagem central da sua Carta aos Romanos, onde escreve: “Todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus. E vós não recebestes um espírito da escravidão para cair novamente no medo, mas recebestes o Espírito que torna filhos adotivos, por meio do qual clamamos: “Abá! Pai”. O próprio Espírito, junto ao nosso espírito, atesta que somos filhos de Deus”, não servos (8,14-16). Somente se nos abrimos à ação de Deus, como Maria, somente se confiamos a nossa vida ao Senhor como a um amigo no qual nós confiamos totalmente, tudo muda, a nossa vida adquire um novo sentido e uma nova face: aquela dos filhos de um Pai que nos ama e nunca nos abandona.
Falamos de dois elementos: o elemento primeiro o Espírito sobre as águas, o Espírito Criador; tem um outro elemento nas palavras da Anunciação.
O anjo diz a Maria: “O poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra”. É um lembrete da nuvem santa que, durante o caminho do êxodo, parava na tenda do encontro, na arca da aliança, que o povo de Israel levava consigo, e que indicava a presença de Deus (cfr Es 40,40,34-38). Maria, então, é a nova tenda santa, a nova arca da aliança: com o seu “sim” às palavras do arcanjo, Deus recebe uma morada neste mundo, Aquele que o universo não pode conter para habitar no ventre de uma virgem.
Retornamos então à questão com a qual começamos, aquela sobre a origem de Jesus, sintetizada pela pergunta de Pilatos: “De onde és tu?”. Das nossas reflexões aparece claro, desde o início dos Evangelhos, qual é a verdadeira origem de Jesus: Ele é o Filho Unigênito do Pai, vem de Deus. Estamos diante do grande e perturbador mistério que celebramos neste tempo do Natal: o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-se no seio da Virgem Maria. Este é um anúncio que soa sempre novo e que traz em si esperança e alegria ao nosso coração, porque nos doa toda vez a certeza de que, mesmo se muitas vezes nos sentimos fracos, pobres, incapazes diante da dificuldade e do mal do mundo, o poder de Deus age sempre e opera maravilhas propriamente na fraqueza. A sua graça é a nossa força. (cfr 2 Cor 12,9-10). Obrigado.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Catequese de Bento XVI: A fé de Maria - 19/12/2012

Boletim da Santa Sé
(Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)




Queridos irmãos e irmãs,

No caminho do Advento a Virgem Maria ocupa um lugar particular como aquela que de modo único esperou a realização das promessas de Deus, acolhendo na fé e na carne Jesus, o Filho de Deus, em plena obediência à vontade divina. Hoje, gostaria de refletir brevemente convosco sobre a fé de Maria a partir do grande mistério   da Anunciação“Chaîre kecharitomene, ho Kyrios meta sou”, “Alegra-te, cheia de graça: o Senhor é convosco” (Lc 1, 28). São estas as palavras – reportadas pelo evangelista Lucas – com as quais o arcanjo Gabriel se dirige a Maria. À primeira vista, o termo chaîre, “alegra-te”, parece uma saudação normal, como era usual no âmbito grego, mas esta palavra, se lida a partir da tradição bíblica, adquire um significado muito mais profundo. Este mesmo termo está presente quatro vezes na versão grega do Antigo Testamento e sempre como anúncio de alegria pela vinda do Messias (cfr Sof 3,14; Gl 2,21; Zc 9,9; Lam 4,21). A saudação do anjo a Maria é também um convite à alegria, a uma alegria profunda, anuncia o fim da tristeza que há no mundo diante das limitações da vida, do sofrimento, da morte, da maldade, da escuridão do mal que parece obscurecer a luz da bondade divina. É uma saudação que marca o início do Evangelho, da Boa Nova.
Mas por que Maria é convidada a alegrar-se deste modo? A resposta está na segunda parte da saudação: “o Senhor está convosco”. Também aqui para compreender bem o sentido da expressão devemos dirigir-nos ao Antigo Testamento. No Livro de Sofonias encontramos esta expressão “Alegra-te, filha de Sião... Rei de Israel é o Senhor em meio a ti... O Senhor, teu Deus, em meio a ti é um salvador poderoso” (3,14-17). Nestas palavras há uma dupla promessa feita a Israel, à filha de Sião: Deus virá como Salvador e habitará em meio ao seu povo, no ventre da filha de Sião. No diálogo entre o anjo e Maria realiza-se exatamente esta promessa: Maria é identificada com o povo escolhido por Deus, é verdadeiramente a Filha de Sião em pessoa; nela se cumpre a esperada vinda definitiva de Deus, nela toma morada o Deus vivente.
Na saudação do anjo, Maria é chamada “cheia de graça”; em grego o termo “graça”, charis, tem a mesma raiz lingüística da palavra “alegria”. Também nesta expressão esclarece-se a fonte de alegria de Maria: a alegria provém da graça, provém, isso é, da comunhão com Deus, do ter uma conexão tão vital com Ele, de ser morada do Espírito Santo, totalmente moldada pela ação de Deus. Maria é a criatura que de modo único abriu a porta a seu Criador, colocou-se em suas mãos, sem limites. Ela vive inteiramente da e na relação com o Senhor; está em atitude de escuta, atenta a acolher os sinais de Deus no caminho do seu povo; está inserida em uma história de fé e de esperança nas promessas de Deus, que constitui o cerne da sua existência. E se submete livremente à palavra recebida, à vontade divina na obediência da fé.
O Evangelista Lucas narra a história de Maria por meio de um fino paralelismo com a história de Abraão. Como o grande Patriarca é o pai dos crentes, que respondeu ao chamado de Deus a sair da terra onde morava, da sua segurança, para iniciar o caminho para uma terra desconhecida e possuindo somente a promessa divina, assim Maria confia com plena confiança na palavra que lhe anuncia o mensageiro de Deus e se torna modelo e mãe de todos os crentes.
Gostaria de destacar um outro aspecto importante: a abertura da alma a Deus e à sua ação na fé inclui também o elemento das trevas. A relação do ser humano com Deus não apaga a distância entre o Criador e a criatura, não elimina o que afirma o apóstolo Paulo frente à profundidade da sabedoria de Deus: “Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos” (Rm 11,33). Mas propriamente aquele que – como Maria – está aberto de modo total a Deus, vem a aceitar a vontade divina, também se é misterioso, também se sempre não corresponde ao próprio querer e é uma espada que transpassa a alma, como profeticamente dirá o velho Simeão a Maria, no momento no qual Jesus é apresentado no Templo (cfr Lc 2,35). O caminho de fé de Abraão compreende o momento de alegria pela doação do filho Isaac, mas também o momento de treva, quando precisa ir para o monte Moria para cumprir um gesto paradoxal: Deus lhe pede para sacrificar o filho que havia acabado de lhe dar. No monte o anjo lhe ordena: “Não estenda a mão contra o menino e não lhe faça nada! Agora sei que tu temes a Deus e não me recusaste o teu filho, o teu unigênito” (Gen 22, 12); a plena confiança de Abraão no Deus fiel às promessas não é menor mesmo quando a sua palavra é misteriosa e difícil, quase impossível, de acolher. Assim é para Maria, a sua fé vive a alegria da Anunciação, mas passa também pelas trevas da crucificação do Filho, para poder chegar à luz da Ressurreição.
Não é diferente também para o caminho de fé de cada um de nós: encontramos momentos de luz, mas encontramos também momentos no qual Deus parece ausente, o seu silêncio pesa no nosso coração e a sua vontade não corresponde à nossa, àquilo que nós queremos. Mas quanto mais nos abrimos a Deus, acolhemos o dom da fé, colocamos totalmente Nele a nossa confiança – como Abraão e como Maria – tanto mais Ele nos torna capazes, com a sua presença, de viver cada situação da vida na paz e na certeza da sua fidelidade e do seu amor. Isso, porém, significa sair de si mesmo e dos próprios projetos, para que a Palavra de Deus seja a luz que guia os nossos pensamentos e as nossas ações.
Gostaria de concentrar-me ainda sobre um aspecto que emerge nas histórias sobre a Infância de Jesus narrada por São Lucas. Maria e José levam o filho a Jerusalém, ao Templo, para apresentá-lo e consagrá-lo ao Senhor como prescreve a lei de Moisés: “Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (cfr Lc 2,22-24). Este gesto da Sagrada Família adquire um sentido ainda mais profundo se o lemos à luz da ciência evangélica de Jesus aos 12 anos, depois de três dias de busca, é encontrado no Templo a discutir entre os mestres. As palavras cheias de preocupação de Maria e José: “Filho, por que nos fez isso? Teu pai e eu, angustiados, te procurávamos”, corresponde à misteriosa resposta de Jesus: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai? (Lc 2,48-49). Isso é, na propriedade do Pai, na casa do Pai, como o é um filho. Maria deve renovar a fé profunda com a qual disse “sim” na Anunciação; deve aceitar que na precedência havia o Pai verdadeiro e próprio de Jesus; deve saber deixar livre aquele Filho que gerou para que siga a sua missão. E o “sim” de Maria à vontade de Deus, na obediência da fé, repete-se ao longo de toda a sua vida, até o momento mais difícil, aquele da Cruz.
Diante de tudo isso, podemos nos perguntar: como pode viver Maria este caminho ao lado do Filho com uma fé tão forte, também nas trevas, sem perder a plena confiança na ação de Deus? Há uma atitude de fundo que Maria assume diante a isso que vem na sua vida. Na Anunciação Ela permanece perturbada escutando as palavras do anjo – é o temor que o homem experimenta quando é tocado pela proximidade de Deus - , mas não é a atitude de quem tem medo diante disso que Deus pode querer. Maria reflete, interroga-se sobre o significado de tal saudação (cfr Lc 1,29). O termo grego usado no Evangelho para definir este “refletir”, "dielogizeto", refere-se à raiz da palavra “diálogo”. Isto significa que Maria entra em íntimo diálogo com a Palavra de Deus que lhe foi anunciada, não a considera superficialmente, mas se concentra, a deixa penetrar na sua mente e no seu coração para compreender isso que o Senhor quer dela, o sentido do anúncio. Um outro aceno para a atitude interior de Maria frente à ação de Deus o encontramos sempre no Evangelho de São Lucas, no momento do nascimento de Jesus, depois da adoração dos pastores. Afirma-se que Maria “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19); em grego o termo é symballon, poderíamos dizer que Ela “tinha junto”, “colocava junto” no seu coração todos os eventos que estavam acontecendo; colocava cada elemento, cada palavra, cada fato dentro de tudo e o comparava, o conservava, reconhecendo que tudo provém da vontade de Deus. Maria não para em uma primeira compreensão superficial disso que acontece na sua vida, mas sabe olhar em profundidade, deixa-se levar pelos acontecimentos, os elabora, os discerne, e adquire aquela compreensão que somente a fé pode garantir. É a humildade profunda da fé obediente de Maria, que acolhe em si também aquilo que não compreende do agir de Deus, deixando que seja Deus a abrir a mente e o coração. “Bem aventurada aquela que acreditou no cumprimento da palavra do Senhor” (Lc 1,45), exclama a parente Isabel. É propriamente pela sua fé que todas as gerações a chamarão bem aventurada.
Queridos amigos, a solenidade do Natal do Senhor que em breve celebraremos, convida-nos a viver esta mesma humildade e obediência de fé. A glória de Deus não se manifesta no triunfo e no poder de um rei, não resplandece em uma cidade famosa, em um suntuoso palácio, mas toma morada no ventre de uma virgem, revela-se na pobreza de um menino. A onipotência de Deus, também na nossa vida, age com a força, sempre silenciosa, da verdade e do amor. A fé nos diz, então, que o poder indefeso daquele Menino no fim vence o rumor dos poderes do mundo.

 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Catequese de Bento XVI: Etapas da Revelação - 12/12/12

Boletim da Santa Sé
(Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)





Queridos irmãos e irmãs,

Na catequese passada falei da Revelação de Deus, como comunicação que Ele faz de Si mesmo e do seu desígnio de benevolência e de amor. Esta Revelação de Deus se insere no tempo e na história dos homens: história que transforma “o lugar no qual podemos constatar o agir de Deus a favor da humanidade. Ele chega até nós naquilo que para nós é mais familiar, e fácil de verificar, porque constitui o nosso contexto cotidiano, sem o qual não seríamos capazes de entender” (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 12).
O Evangelista São Marcos – como ouvimos – relata, em termos claros e sintéticos, os momentos iniciais da pregação de Jesus “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15). Isso que ilumina e dá sentido pleno à história do mundo e do homem começa a brilhar na gruta de Belém; é o Mistério que logo contemplaremos no Natal: a salvação que se realiza em Jesus Cristo. Em Jesus de Nazaré Deus manifesta a sua face e pede a decisão do homem de reconhecê-Lo e de segui-Lo. O revelar-se na história para entrar em relação de diálogo de amor com o homem, doa um novo sentido a todo o caminho humano. A história não é uma simples sucessão de séculos, de anos, de dias, mas é o tempo de uma presença que doa pleno significado e a abre a uma sólida esperança.
Onde podemos ler as etapas desta Revelação de Deus? A Sagrada Escritura é o lugar privilegiado para descobrir os eventos deste caminho, e gostaria – mais uma vez – de convidar todos, neste Ano da Fé, a tomar mais em mãos a própria Bíblia para lê-la e meditá-la e a prestar mais atenção às Leituras da Missa dominical; tudo isso constitui um alimento precioso para a nossa fé.
Lendo o Antigo Testamento podemos ver como as intervenções de Deus na história do povo que foi escolhido e com o qual estabelece aliança não são fatos que passam e caem no esquecimento, mas tornam-se “memória”, constituem juntos a “história da salvação”, mantida vida na consciência do povo de Israel através da celebração dos acontecimentos salvíficos. Assim, no Livro do Êxodo o Senhor diz a Moisés para celebrar o grande momento da libertação da escravidão do Egito, a Páscoa hebraica, com estas palavras: “Este dia será para vós um memorial; o celebrais como festa do Senhor: de geração em geração o celebrais como um rito perene” (12, 14). Para todo o povo de Israel recordar isso que Deus fez torna-se uma espécie de imperativo constante, para que a passagem do tempo seja marcada pela memória viva dos eventos passados, que assim formam, dia a dia, de novo a história e permenecem presentes. No Livro do Deuteronômio, Moisés se dirige ao povo dizendo: “Guarda-te, pois, a ti mesmo: cuida de nunca esquecer o que viste com os teus olhos, e toma cuidado para que isso não saia jamais de teu coração, enquanto viveres; e ensina-o aos teus filhos, e aos filhos de teus filhos” (4, 9). E assim diz também a nós: “Cuides bem para não esquecer as coisas que Deus fez conosco”. A fé é alimentada pela descoberta e pela memória de Deus sempre fiel, que conduz a história e que constitui o fundamento seguro e estável sobre o qual construir a própria vida. Também o canto do Magnificat, que a Virgem Maria eleva a Deus, é um exemplo altíssimo desta história da salvação, desta memória que faz e tem presente o agir de Deus. Maria exalta o agir misericordioso de Deus no caminho concreto de seu povo, a fidelidade às promessas de aliança feitas a Abraão e à sua descendência; e tudo isso é memória viva da presença divina que nunca falha (cfr Lc 1,46-55).
Para Israel, o Êxodo é o acontecimento histórico central no qual Deus revela a sua ação poderosa. Deus livra os israelitas da escravidão do Egito para que possam retornar à Terra Prometida e adorá-Lo como o único e verdadeiro Senhor. Israel não se coloca a caminho para ser um povo como os outros – para ter também ele uma independência nacional - , mas para servir Deus no culto e na vida, para criar para Deus um lugar onde o homem está em obediência a Ele, onde Deus é presente e adorado no mundo; e, naturalmente, não só para eles, mas para testemunhá-lo em meio aos outros povos. A celebração deste acontecimento é um torná-lo presente e atual, porque a obra de Deus não falha. Ele tem fé em seu desígnio de libertação e continua a persegui-lo, a fim de que o homem possa reconhecer e servir o seu Senhor e responder com fé e amor à sua ação.
Deus também revela a Si próprio não somente no ato primordial da criação, mas entrando na nossa história, na história de um pequeno povo que não era nem o mais numeroso, nem o mais forte. E esta Revelação de Deus, que segue na história, culmina em Jesus Cristo: Deus, o Logos, a Palavra criadora que é a origem do mundo, encarnou-se em Jesus e mostrou a verdadeira face de Deus. Em Jesus se cumpre cada promessa, Nele culmina a história de Deus com a humanidade. Quando lemos a história dos dois discípulos no caminho de Emaús, narrada por São Lucas, vemos como emerge de modo claro que a pessoa de Cristo ilumina o Antigo Testamento, toda a história da salvação e mostra o grande desígnio unitário dos dois Testamentos, mostra a via da sua singularidade. Jesus, de fato, explica aos dois viajantes perdidos e desiludidos ser o cumprimento das promessas: “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (24, 27). O Evangelista relata a exclamação dos dois discípulos depois de terem reconhecido que aquele companheiro de viagem era o Senhor: “Não abrasava em nós o nosso coração enquanto Ele conversava conosco ao longo do caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (v. 32).
O Catecismo da Igreja Católica resume as etapas da Revelação divina mostrando sinteticamente o desenvolvimento (cfr nn. 54-64): Deus convidou o homem desde o início a uma íntima comunhão consigo e mesmo quando o homem, pela própria desobediência, perdeu a sua amizade, Deus não o abandonou em poder da morte, mas ofereceu muitas vezes aos homens a sua aliança (cfr Missal Romano, Pregh. Euc. IV). O Catecismo traça o caminho de Deus com o homem a partir da aliança com Noé depois do dilúvio, ao chamado de Abraão a sair de sua terra para torná-lo pai de uma multidão de povos. Deus forma Israel como seu povo, através do acontecimento do Êxodo, a aliança do Sinai e a doação, por meio de Moisés, da Lei para ser reconhecido e servido como o único Deus vivo e verdadeiro. Com os profetas Deus conduz o seu povo na esperança da salvação. Conhecemos – através de Isaías – o “segundo Êxodo”, o retorno do exílio da Babilônia à própria terra, o restabelecimento do povo; ao mesmo tempo, porém, muitos permanecem na dispersão e assim começa a universalidade desta fé. No final, não se espera mais somente um rei, Davi, um filho de Davi, mas um “Filho do homem”, a salvação de todos os povos. Realizam-se encontros entre as culturas, primeiro com Babilônia e a Síria, depois também com a multidão grega. Assim vemos como o caminho de Deus se alarga, se abre sempre mais para o Mistério de Cristo, o Rei do universo. Em Cristo se realiza finalmente a Revelação na sua plenitude, o desígnio de benevolência de Deus: Ele próprio se faz um de nós.
Eu me concentrei em fazer memória do agir de Deus na história do homem, para mostrar as etapas deste grande desígnio de amor testemunhado no Antigo e no Novo Testamento: um único desígnio de salvação dirigido a toda a humanidade, progressivamente revelado e realizado pelo poder de Deus, onde Deus sempre reage às respostas do homem e encontra novos inícios de aliança quando o homem se perde. Isto é fundamental no caminho de fé. Estamos no tempo litúrgico do Advento que nos prepara para o Santo Natal. Como sabemos todos, o termo “Advento” significa “vinda”, “presença”, e antigamente indicava propriamente a chegada do rei ou do imperador em uma determinada província. Para nós cristãos a palavra indica uma realidade maravilhosa e perturbadora: o próprio Deus cruzou seu Céu e se inclinou sobre o homem; estabeleceu aliança com ele entrando na história de um povo; Ele é o rei que caiu nesta pobre província que é a terra e doou a nós sua visita assumindo a nossa carne, tornando-se homem como nós. O Advento nos convida a traçar o caminho desta presença e nos recorda sempre novamente que Deus não se retirou do mundo, não está ausente, não nos abandonou a nós mesmos, mas vem ao nosso encontro de diversos modos, que devemos aprender a discernir. E também nós com a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade, somos chamados todos os dias a decifrar e testemunhar esta presença no mundo frequentemente superficial e distraído, e a fazer brilhar na nossa vida a luz que iluminou a gruta de Belém. Obrigado.